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Juan José Sánchez, CEO da Capital Energy: “Vamos converter-nos numa das principais empresas de renováveis”

Por: Capital Energy · 13 Jul 2020

  • “Cerca de 75% do financiamento será com project finance”.
  •  “O objetivo é alcançar 5% de quota de comercialização nos próximos anos”.
  • “No curto prazo, não queremos entrar em bolsa. Queremos ir passo a passo. A médio prazo estudaremos qualquer via”.

Juan José Sánchez, administrador delegado da Capital Energy, elabora um plano de investimento em cinco anos para a empresa com a intenção de se tornar um dos principais geradores e comercializadores de energia verde no nosso país. A empresa surpreendeu há algumas semanas com o anúncio de um plano de investimento milionário de 10.000 milhões nos próximos cinco anos, o que faz empalidecer até as elétricas tradicionais.

Como vão financiar o investimento de 10.000 milhões que anunciaram?

Estamos a concluir a definição da estrutura de capital que iremos ter. Neste momento, o contexto que existe é de muita liquidez para projetos deste tipo, robustos, sólidos, sustentáveis e de longo prazo, como é o desenvolvimento de renováveis. Contaremos com instrumentos de dívida e de liquidez. O plano de investimento é de mais de 10.000 milhões acumulados que serão desenvolvidos de forma faseada. Há mais parte de investimento no fim do que agora no arranque. Haverá uma parte importante relacionada com técnicas de financiamento de projeto para otimizar a eficiência financeira desse plano. Cerca de 70 a 75% poderiam estar associados a este tipo de financiamento e o resto das necessidades virá da própria reciclagem dos fluxos do projeto quando os colocarmos em funcionamento de forma gradual e com as margens de outras linhas de negócio que estamos a iniciar, como a comercialização de eletricidade. A outra parte virá de um conjunto de soluções, como dívida corporativa que possa existir como de equity de diferentes tipos. Valorizamos a entrada potencial de sócios minoritários em alguns projetos que possam ajudar-nos a reciclar capital e que estejam alinhados com a nossa estratégia. A premissa é uma disciplina financeira muito séria, com baixa alavancagem e sempre intimamente ligada aos projetos e à atividade. O objetivo será obter um rating de crédito de grau de investimento em todos os níveis de dívida da empresa. Será mais simples fazê-lo ao nível de projeto, mas à medida que tenhamos mais solidez, iremos procurá-lo a nível corporativo.

A ideia é emitir títulos?

Quando tivermos grupos de projetos próximos da operação, é uma linha que pode ser explorada e, ao nível da empresa, em 2022 ou 2023, estaremos em condições de ter um rating de crédito.

Quais são os objetivos dos primeiros anos?

A empresa tem liquidez para enfrentar os primeiros 18 meses se alavancarmos bem os projetos. Temos atualmente a intenção de arrancar com a construção de dois projetos de 100 MW no terceiro trimestre deste ano. Cerca de 1 GW estaria na fase madura de construção até ao final do próximo ano.

Planeiam fazer a rotação de ativos?

O objetivo agora é gerir a construção dos projetos que desenvolvemos e manter em operação, pelo menos, com controlo, os ativos que construirmos. Não contemplamos a venda de ativos. Estudaremos a hipótese da rotação da carteira se houver alguma operação que seja interessante e que permita reforçar a estratégia.

A ideia é crescer ao mesmo tempo em comercialização?

Com a escala que gerimos de acesso, o que queremos é um mix diversificado de acesso ao mercado. Quando os leilões forem organizados com o último RDL no final deste ano iremos aos leilões. Estamos a negociar PPA com diferentes agentes e parte da produção irá para o mercado onde iremos gerir os riscos de forma mais dinâmica do que nos de futuros.

Queremos chegar ao cliente final para tentar ter uma parte equilibrada da nossa geração. Começando do zero a comercialização será difícil de chegar aos 100%, mas temos um objetivo de que 50% da geração dos nossos parques eólicos cheguem ao cliente final pelas nossas mãos, independentemente de o cliente final ser utilities ou offtakers. O foco com esta escala é atingir 5% de quota no mercado de energia na parte da comercialização. Temos de adotar uma abordagem multissegmentada. O nosso foco inicial será o cliente doméstico e as PME. Queremos levar-lhes energia renovável e serviços de valor acrescentado. De qualquer forma, teremos de atingir o segmento industrial para sermos equilibrados e já estamos a explorar outras vias de colaboração que procuramos, como o hidrogénio verde ou o armazenamento de energia.

Existem ofertas definidas?

Estamos a iniciando a fase de testes com funcionários e colaboradores. Estamos, desde o final do ano passado, a preparar todos os procedimentos regulamentares. Montámos toda a arquitetura de sistemas de que necessitamos. Fomos muito cuidadosos porque queremos escalar rapidamente e não nos valia de nada e prestámos especial atenção a esta parte. Os ativos digitais nos quais os clientes e o agente irão interagir. Iniciamos a fase de testes em julho com o objetivo de que, se correr bem, possamos entrar no mercado antes do fim do ano.

O produto estrela que será o preço?

A nossa proposta de valor baseia-se em três alavancas: sermos competitivos em termos de preço, este potencial dá-nos mais ferramentas do que outras empresas de comercialização e dois ângulos mais intangíveis, como levar os nossos projetos até aos clientes finais e deixar os projetos com cabeça, tronco e membros. Temos uma importante diversificação geográfica. Estamos presentes em 45 províncias espanholas e em onze distritos de Portugal e em cerca de 1.500 municípios. Com o que acreditamos dispormos de uma proposta de valor próxima do ambiente.

Queremos gerar uma experiência de serviço ao cliente inesquecível e uma experiência digital de que somos uma empresa sem legado em digitalização, o que nos dá muita flexibilidade. Com a situação da COVID está a acelerar-se.

Planeiam adquirir uma carteira de comercialização?

No curto prazo, nosso foco é o crescimento orgânico. Temo-nos preocupado muito em escolher a melhor equipa e o nosso foco é estabelecer uma base sólida. No médio prazo, iremos explorar alternativas e se virmos que é bom para a empresa, veremos.

A nova regulamentação de pontos de acesso não é má para vocês?

Há algum tempo que trabalhamos com as associações e com o ministério propondo medidas como as que foram aprovadas. É um real decreto muito oportuno. Felicitamos o ministério por o ter aprovado.

A especulação vai acabar?

O RDL estabelece uma moratória. Nada mais pode ser solicitado. O facto de se terem definido alguns marcos importantes e de se ter concedido três meses aos agentes que pensam que não vão chegar para que possam sair permitirá ter uma visão mais clara dos projetos da empresa.

Parece uma amnistia para os especuladores?

Sim. No fim de contas, demorou porque havia outras urgências políticas e esse volume aumentou, mas penso que é uma boa medida de qualquer maneira.

Planeiam ir para o exterior novamente como fizeram no passado nos Estados Unidos ou na Polónia?

O foco do plano de negócio é desenvolver todo este crescimento em Espanha e Portugal, mas a evolução, se levarmos a cabo o plano, leva-nos a ver caminhos de crescimento noutros mercados, mas, de momento, não é a prioridade. Há um longo percurso no mercado ibérico, mas, quando o planearmos, fá-lo-emos de forma muito seletiva para replicar o mesmo modelo que temos aqui.

Há em mente uma entrada em bolsa? Se alcançarem o objetivo, vão transformar-se numa das principais empresas de renováveis do país?

Vamos transformar-nos numa das principais empresas, mas não contemplamos, no curto prazo, uma entrada em bolsa. Estamos a acabar de definir a estrutura de capital e no curto prazo não o equacionamos, mas no médio prazo não descartamos nada. Queremos ir passo a passo e o médio prazo estudaremos qualquer via.

Têm já algum projeto de hidrogénio?

Temos vários em cima da mesa nos quais estamos a trabalhar. Tendo uma carteira puramente renovável, decidimos incorporar o armazenamento e o hidrogénio para tornar a carteira mais gerível. Contamos com uma equipa com experiência em Espanha e na Europa no passado que estrutura, em consórcio com tecnólogos muito poderosos e grandes empresas industriais, vários projetos para apresentação a diferentes programas europeus e nacionais como os do CDTI. Alguns deles apenas em zonas de transição justa.

Vão entrar no negócio do autoconsumo?

O autoconsumo é uma das linhas de serviços de valor acrescentado mais avançadas que possuímos e o seu lançamento será feito conjuntamente com o lançamento da empresa de comercialização antes do final do ano. É um serviço que pode acrescentar muito valor ao sistema. O consumidor estará no centro e terá mais ferramentas e informações. Queremos oferecer-lhe soluções. Também lançaremos um veículo de corporate venturing que terá muito foco em negócios associados ao cliente final e queremos adaptar-nos e antecipar tendências. Já fizemos uma incursão com a participação na convocatória Energia Positiva. Os projetos que apoiamos são dois relacionados com o cliente final.

Terá um orçamento definido?

Existe uma previsão de 20 milhões de euros em cinco anos. Não se trata de um veículo financeiro, trata-se de conseguir entrar em projetos que permitam antecipar tendências com muito foco no cliente final. Haverá projetos com foco na eficiência da cadeia de valor industrial para a operação e construção dos nossos ativos, assim como no prolongamento da sua vida útil.

Já têm algum contrato para a compra de turbinas eólicas?

Queremos, desde o início, gerar confiança no mercado, fazendo-o projeto a projeto. Queremos industrializar estes processos e a partir daí começaremos a ter uma estratégia de acordo com o volume que tivermos.

Haverá hibridização de centrais?

É uma via natural de crescimento da nossa carteira. É bom para todo o sistema. Já há algum tempo que analisamos a forma de o otimizar e agora que a regulamentação está mais clara, iremos aplicar toda essa análise nos projetos sempre que seja económica e ambientalmente viável.

Vão participar no negócio da mobilidade?

Tudo o que gira em torno do cliente final. Vamos olhar para ele de forma dinâmica. Uma das startups que escolhemos tenta envolver-se em comportamentos sustentáveis através da gamificação. Além disso, em questões como a gestão de pontos de carregamento nas residências é algo que podemos explorar.